Por Solon Cordeiro de Araújo

Consultor da ANPII e SCA Consultoria

Acirra-se em todo o Brasil uma discussão sobre os rumos da ciência, dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, seja nas universidades, seja nas entidades federais e estaduais. Algumas destas instituições de pesquisa foram fechadas, outras tiveram suas verbas drasticamente reduzidas, pessoal se aposentando e vagas não sendo repostas na mesma velocidade.

Sem entrar aqui na discussão política, pois a governança de um país é algo complexo, que envolve um sem número de variáveis, cabe-nos apenas reiterar, com ênfase, o papel das atividades de P&D no sucesso do agronegócio brasileiro. Também é desnecessário desfiarmos os números que colocam a atividade agropecuária como a locomotiva da economia brasileira, sendo o único setor que, mesmo em tempos de crise e recessão, manteve um crescimento consistente.

A evolução da agricultura brasileira. A partir da segunda metade do século XX até o momento, deu-se muito mais pelo avanço tecnológico do que pela incorporação de novas áreas de cultivo. O incremento da produtividade em diversas culturas e criações de animais provou ser o caminho para que o mundo possa vir a alimentar de forma eficaz a população mundial, superando o fantasma da volta da fome crônica que se alastrava nos anos 50-60 do século passado e que foi, parcialmente superado pela “Revolução Verde”.  A partir dali foi traçado o caminho mostrando que o investimento em genética vegetal e animal, em melhor nutrição, em melhoramento contínuo do solo, em controle de pragas e doenças e em todas as boas práticas agrícolas, trazia sensíveis aumentos de produtividade e de rentabilidade para o agricultor, o que proporcionou mais alimentos a preços menores, ao mesmo tempo em que melhorava  a renda no campo.

O Brasil, como nenhum outro país, soube aproveitar este momento e se engajar fortemente na moderna agricultura, seja na grande, na média e na pequena propriedade. A criação da EMBRAPA, aliada à mudança de mentalidade de algumas universidades que saíram da “Catedral do Saber” para ir a campo, dialogar com os agricultores, ver a realidade do agro, fizeram a união entre a ciência e o saber empírico, prático, tornando o agronegócio brasileiro a atividade pujante que apresenta hoje.

O investimento em P&D, com preparação de pessoal científico e técnico de elevados conhecimentos, o intercâmbio de profissionais entre o Brasil e outros países cientificamente mais evoluídos, a decisão política de tornar o Brasil não só autossuficiente mas também em exportador de alimentos, permitiram que vastas áreas do cerrado brasileiro fossem incorporadas ao sistema produtivo e que as áreas tradicionais de agricultura experimentassem um inédito aumento de produtividade.

No objeto de trabalho da ANPII, a Fixação Biológica do Nitrogênio, a participação das áreas de pesquisa tem sido de inestimável valor. A primeira fábrica de inoculantes do Brasil foi fundada com a orientação técnica do pesquisador J.R. Jardim Freire, da Secretaria de Agricultura do RS e da UFRGS. As bases para o desenvolvimento do inoculante para gramíneas foram montadas pela pesquisadora Johanna Dobereiner, da Embrapa.

E dois dos importantes pilares da bem sucedida indústria de inoculantes do Brasil, líder mundial no setor, foram erguidos também pela pesquisa: a seleção de estirpes de alta eficiência na fixação do nitrogênio e a formação de pessoal capacitado a trabalhar nas indústrias. A seleção de estirpes proporcionou que os inoculantes viessem a suprir toda a necessidade de nitrogênio mesmo para as mais elevadas produtividade da soja. E hoje temos também material genético com excelente desempenho no feijoeiro.

Mais recentemente a prática da co-inoculação, desenvolvida pela pesquisa, foi um novo avanço na FBN, proporcionando significativo aumento de produtividade da soja e do feijoeiro, da ordem de 16%.

No campo da preparação de pessoal, a formação de profissionais capacitados, com sólidos conhecimentos de microbiologia e de condução de pesquisa, conhecimentos estes ampliados por cursos de mestrado e doutorado, proporcionou a criação de departamentos de P&D nas empresas, o que tem levado à oferta de excelentes inoculantes ao agricultor brasileiro.

Assim, sem sombra de dúvida o investimento de recursos públicos em P&D, em geral, mas de forma especial na área agrícola, traz um retorno altamente compensador para a sociedade, que se vê contemplada com bons níveis de segurança alimentar, condição básica para a vida humana.

Revista Cultivar – Janeiro 2020